Lupe de lupe

Homem

Lupe de lupe
Houve um tempo em que nós dois erámos feito unha e carne
Houve um tempo em que nós dois éramos inseparáveis
E por isso imbatíveis

Nascidos numa cidade construída na boca do inferno
Nós vencemos
Porque nos fizemos irredutíveis

Quando eu me sentia pequeno e com medo, você pegava a minha mão e dizia
"As ruas não tem medo
e por isso você também não"

Os pássaros voam alto no céu, os peixes mergulham profundamente no mar
E o que nos resta a fazer é empurrar
Todos os limites da extensão do nosso próprio olhar

E aprendemos juntos que assim como a natureza a gente deve nascer, crescer, viver e fazer amor
Com absolutamente nada na cabeça

Quando você assumiu que era gay, eu nem liguei, eu nem liguei
E na hora eu nem pensei, mas pior
Eu nunca me importei

Sem nenhuma malícia pra ver, nós fomos nos separando
Achando que era tudo natural, tudo natural
Tudo tão natural

Mas agora eu volto
E algumas pessoas pensam que eu sou como o trovão
Mas eu sou como a chuva
Eu sou a chuva que vem lavar e levar tudo de volta pro chão
Tudo de volta pro chão, tudo de volta pro chão

Quando fomos para longe um do outro
Você foi sempre, sempre pra frente, sempre pra frente
E eu aqui sempre estagnado

Porque nós, homens, fomos criados
Em corpos tão horrendos, feios e fracos
Senão para sermos amados
Senão para sermos amados

Eu devia ter escolhido você ao invés desses animais sem nenhuma dó
Mas deus sabe o quanto eu sentia falta de algo moderado
E o talento é sempre mais bonito quando desperdiçado

Feito homens cegos e um elefante, nós te julgamos e e te analisamos
Mas hoje eu sei, hoje eu sei, que eu errei
Deus, como eu errei

Nascidos num lugar em que se quebra regras pra sobreviver
Eu não quebrei a pior das regras, eu não quebrei
Eu nunca me importei

25 anos sem beijar um homem
25 anos pra chegar e te dizer
Que se eu tivesse beijado um homem, esse homem seria você
Esse homem seria você

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